Toda vez que eu falo de posições, aparece a mesma frase nos comentários, escrita por mães diferentes com quase as mesmas palavras: “ela levanta muito bem, mas é baixinha”.
Eu entendo de onde vem. No vôlei brasileiro a altura é a primeira coisa que se comenta sobre uma levantadora, muitas vezes antes de qualquer pessoa vê-la jogar. Só que quando a gente foi olhar os elencos americanos, o que apareceu não confirma nem desmente essa frase. Ele mostra outra coisa: a altura não é uma porta única, e não é ela que abre primeiro.
O que a gente mediu
Fui olhar as levantadoras da Divisão I, que é o nível mais alto do vôlei universitário americano. São 941 com altura registrada, em 348 programas.
A mediana é 1,78 m. Só que a faixa é larga: uma em cada dez está em 1,70 m ou menos, e uma em cada dez está em 1,85 m ou mais.
Em blocos fica mais claro:
Até 1,72 m: 12%
De 1,73 a 1,77 m: 30%
De 1,78 a 1,82 m: 34%
1,83 m ou mais: 24%
Somando os dois primeiros, 42% das levantadoras da Divisão I jogam com menos de 1,78 m. Quatro em cada dez, no nível mais alto que existe.
E isso é só a Divisão I. Fora dela a mediana cai para 1,73 m na Divisão II e para 1,70 m na Divisão III, na NAIA e nas faculdades de dois anos.
Se existisse uma altura mínima de levantadora, essa tabela não teria esse formato.
Por que a faixa é tão larga
Porque existem dois jeitos de usar uma levantadora, e eles pedem coisas diferentes.
No 5x1, o time joga com uma levantadora só em quadra. Ela roda as seis rotações, e metade do jogo está na rede. Nesse desenho o técnico quer altura, um bloqueio que ocupe espaço e uma bola de segunda que obrigue o bloqueio adversário a respeitar ela.
No 6x2, o time usa duas levantadoras que só levantam do fundo. Quando uma gira para a rede, ela sai e a outra entra. Ela nunca bloqueia. Em troca, tem três atacantes na frente em toda rotação, e precisa saber usar os três.
O 6x2 só se sustenta lá por causa de uma regra que eu já expliquei aqui: no vôlei feminino universitário americano são 15 substituições por set, contra 6 no Brasil, e a mesma atleta entra e sai o set inteiro. Com 6 trocas, essa engrenagem não dura um set. Com 15, dura o jogo.
“Mas isso não é o nosso 4x2?”
Foi a pergunta que mais chegou depois do carrossel, e ela merece resposta, porque aqui o vocabulário atrapalha mais do que ajuda.
No Brasil a gente chama de 4x2 o time que joga com duas levantadoras e com a levantadora levantando lá da frente, junto da rede. Sobram dois atacantes na frente, e o nome vem daí: quatro atacantes, duas levantadoras.
Quando quem entra pra levantar é a levantadora que está no fundo, a gente chama de 4x2 com infiltração. Tem gente que fala 6x2 com infiltração. É exatamente esse sistema que o americano chama de 6-2.
Então a resposta curta é sim: o 6-2 americano é o nosso 4x2 com infiltração.
A resposta longa é que uma coisa muda tudo, e é de novo a substituição.
Aqui, quando a levantadora gira pra rede, ela fica em quadra. E se ela fica na frente, ela precisa atacar, senão o time joga com um atacante a menos. Por isso as duas levantadoras de um 4x2 com infiltração brasileiro costumam ser atacantes também.
Lá, quando ela gira pra rede, ela sai. Entra uma atacante no lugar dela, a outra levantadora assume o fundo, e daqui a pouco elas trocam de novo. Ela nunca precisa atacar da frente. Nunca precisa bloquear.
É a mesma formação no papel e um cargo diferente na prática. E é essa diferença, que cabe inteira numa linha do livro de regras, que abre espaço no time americano pra uma levantadora que não é a mais alta da quadra.
Agora, a parte que eu preciso escrever com cuidado, porque é onde quase todo mundo simplifica.
O 6x2 não é o plano A de ninguém
Entre os técnicos com quem eu converso, o alvo é sempre o mesmo: uma levantadora completa, que jogue as seis rotações e resolva na rede também. Quanto mais alto o nível, mais isso vale.
O 6x2 costuma ser resposta a um problema de elenco, e não uma segunda vaga aberta em paralelo. As levantadoras que ele tem são novas, ou nenhuma delas segura o 5x1 sozinha ainda. Aí ele monta com duas do fundo.
E o 6x2 cobra caro. Quando a levantadora sai da rede, alguém entra para atacar no lugar dela, e esse alguém precisa pontuar de verdade, senão a troca não compensa. O outro lado da mesma conta é que manter a levantadora na frente só faz sentido se o bloqueio e a bola de segunda dela valerem mais do que um atacante ali.
É uma conta que o técnico faz olhando para o elenco dele, não para o currículo da sua filha. Por isso o sistema muda de programa para programa, e por isso aquela tabela de alturas é tão espalhada.
O que isso significa na prática, para ela: ela não escolhe o sistema. O que ela controla é quantos times conseguem usá-la. Quanto mais completa, mais ela serve nos dois. Uma limitação não fecha todas as portas, mas fecha algumas, e vale saber quais.
Por que ela sai mais cedo do mercado
Agora o pedaço que quase ninguém conta, e que é o motivo deste artigo.
Nos cinco níveis somados, 956 levantadoras saem por ano, e uma em cada duas faculdades perde pelo menos uma a cada temporada. A taxa de renovação é 23%, exatamente igual à das outras posições, porque a elegibilidade é de quatro anos e uma turma se forma todo ano.
O que muda não é o ritmo. É que tem pouca levantadora em quadra. Um time carrega quase cinco ponteiras e menos de três levantadoras. Quando o técnico perde a dele, ele não tem margem para errar na reposição, e é a posição que ele menos consegue improvisar durante a temporada.
O resultado é que ele fecha a levantadora cedo. Às vezes com um ano de antecedência em relação às outras posições.
Para uma família brasileira, isso muda o calendário inteiro. Uma ponteira que começa o processo tarde ainda pega portas abrindo. Uma levantadora que começa tarde costuma pegar o ciclo seguinte, não o dela.
O que fazer com isso agora
Três coisas, e nenhuma delas custa dinheiro.
Primeiro, saber o que ela entrega hoje. Três perguntas honestas resolvem: ela joga na rede no time dela hoje, bloqueia, larga, ataca de segunda? Quando ela sai da rede, o time perde altura ou ganha velocidade? Com três atacantes na frente, ela distribui ou volta sempre para o mesmo lado? As respostas já existem. Só ninguém perguntou ainda.
Segundo, deixar isso claro no vídeo. O erro que eu mais vejo não é a atleta ser baixa. É o vídeo dela contar a história errada. Uma levantadora de 1,68 m que abre com três bloqueios está entregando ao técnico exatamente aquilo que ele não vai comprar dela. Uma de 1,85 m que se apresenta como “boa de fundo” está disputando a vaga errada. O vídeo não precisa esconder nada. Precisa deixar óbvio, nos primeiros trinta segundos, o que ela resolve.
Terceiro, começar antes. Se a sua filha é levantadora, o relógio dela não é o mesmo das colegas de time. Essa é a única parte deste texto que é urgente.
Um abraço,
Rodrigo


