Boa noite!
Londres, 2012. Quartas de final das Olimpíadas, Brasil x Rússia. O Brasil chegou como favorito, quase caiu na fase de grupos e foi salvando match point atrás de match point no tie-break.
Em São José dos Campos, uma menina de 19 anos assistia sozinha na sala de casa.
“Tava só eu pulando no sofá, quase morrendo do coração.”
Essa menina é a Mari Silva. E o detalhe que muda tudo: naquela época, ela nem era jogadora de vôlei. Era jogadora de futebol.
Hoje ela é a técnica principal do vôlei feminino da Western Illinois University, uma universidade da Divisão 1 (o nível mais alto do esporte universitário americano). Foi anunciada no cargo em fevereiro de 2026, e é a primeira técnica principal que a gente traz no podcast.
O episódio de hoje é a Parte A da nossa conversa: como ela saiu do futebol, chegou nos EUA e virou atleta da Divisão 1. Dá o play aí em cima, e aqui embaixo vai o resumo pra quem quer ler antes (ou depois).
⚽ Até os 19 anos, era futebol
A Mari cresceu jogando tudo: futsal, futebol, tênis, tênis de mesa. Mas o futebol era o número um. Jogou na base do São José e por Taubaté, em nível nacional. Ela estava na categoria de base do São José quando o time adulto ganhou a Libertadores feminina em casa, com 15 mil pessoas no estádio.
Só que naquela época o futebol feminino no Brasil não era profissional. Nem a Marta, jogando pelo Santos, era profissional. A família dela queria o óbvio: “vai estudar, vai ser engenheira”.
E o vôlei? Era de brincadeira.
“Quadra de cimento sem cobertura, dois treininhos por semana.”
Centro comunitário, professor de Educação Física jogando a bola pra cima, torneio de fim de semana com os amigos. Nunca jogou em clube federado.
🏐 Uma escadinha de convites
Aos 18, 19 anos, o vôlei foi crescendo do jeito mais brasileiro possível. Ela jogava um torneio, um técnico de um time amador via e chamava: “tem torneio semana que vem, joga com a gente?”. Aí outro técnico via, e chamava de novo.
“Foi uma escadinha, sabe? Uma pessoa me assistindo e foi me convidando.”
O time em que ela terminou antes de ir pros EUA tinha sido montado por dois amigos que simplesmente gostavam de vôlei. Sem salário, sem federação. Jogavam ali mães que trabalhavam de manhã e treinavam à noite, e até uma ex-jogadora que tinha jogado nos EUA vinte anos antes.
Ela jogava de central, com 1,79m. Alta pra média brasileira, “baixinha” pra seleção.
✉️ Três anos tentando
A sementinha dos EUA veio de uma amiga do futebol que tinha ido jogar lá com bolsa. A Mari começou a assistir os jogos dela pela internet e descobriu que existia a NCAA.
E aqui vem uma parte que pouca gente conta: ela não conseguiu de primeira.
Ano 1: tentou só pelo futebol. Recebeu ofertas, mas nenhuma cobria o suficiente pra ela se manter. Recusou todas.
Ano 2: mandou vídeo de futebol e vídeo de vôlei, pros técnicos dos dois esportes. Não deu.
Ano 3: só vôlei. Aí veio uma bolsa que fechava a conta.
O método era simples. Um amigo explicou:
“Vai no site das escolas, acha o roster, acha o nome do treinador, o e-mail, e manda e-mail pra ele com o vídeo.”
“Você pega uma lista de e-mails, 100 treinadores, manda o mesmo e-mail pra todos eles e vê se alguém te responde.”
O vídeo? Nas palavras dela, “feijão com arroz”: um highlight de dois minutos feito com os dois jogos que ela jogava por mês. E o inglês? Nenhum. Toda vez que um técnico respondia, ela pedia ajuda pro amigo pra entender o que estava escrito.
“Eu fiz o que os agentes fazem, mas sozinha, com os meus dois amigos. Antes do sim veio bastante não. É normal.”
E tem um recado dela, hoje do outro lado da mesa, que vale ouro pra quem está mandando e-mail agora:
“A gente recebe 100 e-mails por dia. Se você não ouve nada dos treinadores, é simplesmente porque eles não têm tempo de responder todo mundo.”
Silêncio não é não.
🛂 O visto, sozinha
A família não sabia nada do processo. Ninguém ali tinha sido atleta.
Ela tirou o passaporte, pegou o ônibus sozinha pra São Paulo, foi ao consulado e fez a entrevista do visto, que tem sempre um pouco de inglês. Na hora de comprovar que tinha dinheiro pra uma emergência, usou a conta bancária do irmão.
“Fui me virando sozinha, fui pedindo ajuda, fui jogando no Google. Foi na cara e na coragem.”
🌾 Pratt, Kansas: 6 mil habitantes
A bolsa veio do Pratt Community College, um junior college (faculdade de dois anos) numa cidade de 6 mil habitantes no Kansas. A bolsa não cobria moradia, então ela morou com uma host family, um casal cujos três filhos tinham saído de casa pra faculdade.
Foi o segundo voo da vida dela. O primeiro tinha sido São Paulo–Rio, 30 minutos.
E ela é a primeira a dizer que começar pequeno foi a melhor decisão:
“Cê vai numa cidade grande, cê meio que fica perdida. A cidadezinha pequenininha me ajudou bastante.”
O primeiro ano foi de sobrevivência. Titular, mas “razoável”. Sem inglês, sem amigas.
Aí ela voltou pro Brasil nas férias, e alguma coisa virou:
“Se você vai voltar pros Estados Unidos e passar por tudo aquilo de novo, cê tem que fazer mais. Fazer o que você fez no primeiro ano não é o suficiente.”
No segundo ano, a levantadora titular saiu um mês antes da temporada. A técnica nova fez dois treinos e escolheu a Mari, que era central, pra levantar. Como as regras femininas nos EUA permitem 15 substituições por set, o time montou um esquema: no fundo de quadra ela levantava, na rede ela jogava de meio.
O time que tinha ganhado 5 jogos no ano anterior ganhou mais de 20. Ela foi All-Conference e MVP de torneio.
🌴 FIU, Miami: 60 mil alunos
Mesmo depois desse ano, ela não acreditava que era boa o suficiente pra Divisão 1. Fechou verbalmente com uma faculdade da Divisão 2 em novembro e recusou as outras.
Um mês depois, a técnica retirou a oferta.
Ela voltou à estaca zero: mais vídeo, mais e-mail. Em abril, dois meses antes de começar, fechou com a Florida International University, em Miami. Da cidade de 6 mil pra uma universidade de 60 mil alunos.
E o que abriu a porta foi justamente a versatilidade: a FIU precisava de uma levantadora pra um ano específico, e no currículo dela estava escrito “levantadora/meio”. Jogou um ano de levantadora, um ano de central, e ainda ajudou o time de vôlei de praia.
No último ano, eram cinco centrais, todas maiores e mais fortes que ela.
“Eu entendia o jogo melhor do que elas. Eu só não ia aceitar passar meu último ano como atleta no banco.”
Ela foi titular.
Em 2018, se formou e foi direto pra cadeira do outro lado da rede: Valdosta State, NVVA, Missouri Southern, quatro temporadas na Towson. Em fevereiro de 2026, Western Illinois.
📝 O que dá pra copiar hoje
Uma ressalva importante antes da lista: como a Mari explica no episódio, as regras de idade da NCAA mudaram. A janela que ela usou, chegando aos 21 na Divisão 1, hoje é bem mais apertada. A gente vai explicar essa regra num texto só dela. Mas o resto do que ela fez continua funcionando:
Faça o vídeo com o que você tem. Dois jogos por mês viraram um highlight de dois minutos. Feito é melhor que perfeito.
Monte a lista. Site da faculdade, roster, nome e e-mail do técnico. Uma linha por escola.
Mande pra muitos. Ela mandou pra 100. Um e-mail curto, com o link do vídeo.
Não leia silêncio como não. O técnico recebe 100 e-mails por dia.
Peça ajuda com o inglês, mas comece a estudar já. O inglês dela limitou as opções desde o primeiro dia.
Considere começar menor. Pra meninas, o junior college é uma porta real, e foi exatamente onde a Mari se desenvolveu.
Esteja pronta pra mudar de posição. Central virou levantadora, e foi isso que a levou à Divisão 1.
🎧 Na Parte B
Na próxima parte, a Mari fala como técnica: o que ela olha quando uma brasileira escreve pra ela, a nota de inglês que decide se uma atleta entra ou não na universidade dela, e as duas brasileiras que ela está recrutando agora pra Western Illinois.
Se você é atleta, pai ou mãe de atleta, a Parte B é pra você.
Conhece uma mãe de atleta que acha que “não dá, porque minha filha não joga em clube”? Encaminha esse e-mail pra ela. A história da Mari responde melhor do que eu.
Um abraço, Rodrigo
P.S. Se a sua filha está em São Paulo: de 20 a 22 de novembro a gente faz o Volleyball Academy Camp, em Santana. As inscrições estão abertas em volleyballacademy.com.br/camp/sp-nov-2026.





