Boa dia.
Toda semana chega uma mensagem parecida com esta aqui:
Rodrigo, minha filha joga bem, mas o inglês dela é fraco. Já era, né?
Não. E a razão de não ser já era é mais interessante do que um simples “calma, dá tempo”.
É que quem cobra o inglês não é o esporte. É a faculdade. E são duas coisas separadas, com gente diferente decidindo, prazos diferentes e papéis diferentes.
Se você entender só isso hoje, o resto do caminho fica bem menos assustador.
🚪 São duas portas, não uma
Nos Estados Unidos, quem diz se a sua filha pode competir é uma associação esportiva. Na prática são três: a NCAA, a NAIA e as faculdades de 2 anos. Pense nelas mais ou menos como a confederação aqui: são elas que liberam a inscrição no campeonato.
Quem diz se ela pode estudar ali é a universidade, no processo de admissão. Essa é a segunda porta, e ela cobra o vestibular à parte.
Agora a parte que quase ninguém sabe: nas exigências de elegibilidade da NCAA e da NAIA não existe prova de inglês. Nenhuma. Elas olham matérias do ensino médio, notas e amadorismo. Proficiência não está na lista.
Quem exige prova de inglês é a universidade, na hora da matrícula, exatamente como exige de qualquer estrangeiro que vá estudar lá. Não é uma regra de atleta. É uma regra de aluno internacional.
Por que isso importa na prática: dá pra passar numa porta e travar na outra. Já vi família comemorar o “tá tudo certo com a elegibilidade” e descobrir dois meses depois que a matrícula estava parada por causa de um teste que ninguém tinha marcado.
Você já viu esse passarinho verde
Você provavelmente já viu a coruja verde. É o Duolingo, o mesmo aplicativo que meio mundo baixou pra treinar inglês no ônibus.
O que quase ninguém sabe é que a mesma empresa faz uma prova oficial de proficiência, o Duolingo English Test. Feita em casa, no computador, e o resultado sai em 2 dias. A nota vale 2 anos.
E aqui vai o aviso que evita muita frustração: as lições do aplicativo não valem como nota. Ofensiva de 500 dias não gera certificado nenhum. O app e a prova são produtos separados da mesma empresa. É a prova que a faculdade lê.
Ainda assim, é hoje o caminho mais fácil de começar: sem viajar pra capital, sem agendar com meses de antecedência, sem sair de casa.
📊 Não existe “a nota”. Existe uma porta por escola
Aqui eu preciso ser honesto com você, porque é um erro que eu mesmo quase cometi ao escrever isso.
Eu tinha conferido três universidades grandes e ia te dizer “a faixa é de 95 a 110 no Duolingo”. Só que as três eram do mesmo tipo: públicas, grandes, todas da divisão de cima. Três escolas parecidas não formam a média de um país com milhares delas.
Então a gente foi conferir de novo, dessa vez em níveis diferentes, cada uma na própria página de admissão internacional. Nota mínima no Duolingo:
Salt Lake Community College — faculdade de 2 anos: não pede prova
Cowley County Community College — faculdade de 2 anos: 85
Arizona State University — NCAA D1: 95
Park University — NAIA: 100
University of Alabama — NCAA D1: 110
A Salt Lake escreve com todas as letras no site: “It is not necessary to take the TOEFL or any other English proficiency exam to be admitted.” Não é necessário fazer o TOEFL nem qualquer outro exame de proficiência para ser admitido.
E aqui vem o “mas”. Não pedir prova não é não precisar de inglês. Lá o teste é na chegada, no nivelamento, e quem não passa entra no inglês intensivo antes de encarar as matérias normais. A exigência não sumiu. Ela mudou de lugar.
Repare também onde estão as duas portas mais baixas: são as faculdades de 2 anos. Isso não faz delas um plano B. Faz delas uma porta de entrada real pra uma atleta que está boa de quadra e ainda atrasada de inglês, com dois anos pra corrigir isso antes de tentar uma transferência.
⚖️ As provas não se equivalem, mesmo quando dizem que sim
Esse é o detalhe que eu mais gostei de descobrir, e ele pode economizar meses de curso.
A Cowley County aceita Duolingo 85 ou TOEFL 61, lado a lado, como se fossem a mesma exigência.
Só que, pela tabela oficial de concordância entre as duas provas, um Duolingo 85 equivale mais ou menos a um TOEFL 47 a 52. Ou seja: na mesma escola, passar pelo Duolingo é claramente mais fácil que passar pelo TOEFL.
Antes de matricular sua filha num cursinho caro pra bater uma nota de TOEFL, vale abrir a página da faculdade que ela quer e ver qual das portas é mais baixa lá. Escolher a prova certa é decisão, não detalhe.
🔄 E atenção: o TOEFL mudou de escala este ano
Se você pesquisar “nota mínima de TOEFL” no Google, vai encontrar listas em duas escalas diferentes, e isso confunde qualquer um.
Desde 21 de janeiro de 2026, o TOEFL iBT não vai mais de 0 a 120. Vai de 1 a 6, de meio em meio ponto, pela média das quatro seções. Até janeiro de 2028 o boletim mostra as duas, então listas antigas vão continuar circulando por aí.
Na prática: a Park University já escreve as duas na página dela, “69, ou 4.0 pra quem fizer a prova de 2026 em diante”. Se você bater numa lista com número solto e sem data, desconfie.
🎟️ Existem caminhos que substituem a prova
Nem todo mundo precisa fazer teste. Vale conferir se a sua filha se encaixa em alguma dessas:
A nota de inglês do SAT ou do ACT. Muita universidade aceita no lugar do TOEFL. A Texas Tech aceita 500 na parte de leitura e escrita do SAT; a Alabama, 550.
Anos de ensino médio nos Estados Unidos. A Texas Tech dispensa com 2 anos; a Alabama, com o diploma americano; a Arizona State, com 4 anos.
Créditos de faculdade americana, inclusive de faculdade de 2 anos. A Texas Tech dispensa com 30 créditos transferíveis.
Admissão condicional ou programa de transição. Ela entra e faz inglês dentro da própria universidade no primeiro período.
Nenhum desses é atalho pra não aprender inglês. É atalho pra não travar a matrícula enquanto ela aprende.
⚠️ Antes de acreditar em qualquer número (inclusive nos meus)
Três cuidados que valem pra sempre:
Confirme na página da faculdade, não no boca a boca. Procure por “English proficiency” ou “international admissions” no site oficial, que termina em .edu. Cada universidade define as próprias regras, e a mesma universidade muda a exigência por curso: na Arizona State é 95 na admissão geral, 105 em engenharia e 120 em jornalismo. Mesma faculdade, mesmo time, curso diferente.
Certificado de escola de idiomas não substitui prova oficial. As faculdades listam quais testes aceitam, e o diploma do curso da esquina não costuma estar na lista.
Ninguém garante nota, e ninguém deveria fazer a prova no lugar dela. Se alguém te oferecer isso, saia de perto. Resultado cancelado por fraude não se conserta, e uma inscrição com problema de integridade acadêmica não morre no teste, morre na admissão.
📝 O que dá pra fazer ainda esta semana
Faça uma avaliação de nível. “Acho que o inglês lá em casa é básico” não vira plano. O Duolingo English Test é online, feito em casa, a qualquer hora, e sai em 2 dias. Serve de termômetro muito antes de valer nota.
DICA: Você pode também fazer um teste de pratica gratuito!Anote o número. Com ele na mão, você para de chutar e passa a saber quantos meses faltam.
Escolha 3 faculdades que fazem sentido pro nível de quadra dela e abra a página de proficiência das três. Anote a nota mínima e a data em que você conferiu.
Compare as portas. Duolingo, TOEFL, IELTS, SAT. Veja qual delas é mais baixa naquela escola específica.
Coloque o inglês no calendário, não na lista de intenções. Conversação e escrita são o que costuma faltar, e são justamente as duas que a prova mede.
🌉 Uma última coisa
Leitura e audição a maioria das famílias brasileiras já tem melhor do que imagina. Série, jogo e YouTube fizeram esse trabalho de graça. O que falta quase sempre é conversação e escrita, e isso não se resolve na véspera.
Ninguém fica de fora por não ser fluente aos 15. Fica por chegar aos 17 sem nunca ter medido.
Inglês não é o portão. É o corredor. O vôlei abre a porta. O inglês é o que faz ela continuar aberta depois que a sua filha entra.
Um abraço, e bom treino.
Rodrigo
Se você conhece uma mãe ou um pai que acha que o inglês impede tudo, encaminha esse e-mail pra eles. É o tipo de coisa que a gente descobre tarde demais quando ninguém conta.
Fontes citadas no artigo
NCAA, elegibilidade inicial de atletas internacionais: https://www.ncaa.org/eligibility-center/initial-eligibility-requirements/international-student-athletes/
ETS, mudança de escala do TOEFL iBT: https://www.ets.org/toefl/institutions/ibt/score-scale-update.html
Salt Lake Community College: https://www.slcc.edu/iss/contact.aspx
Cowley County Community College: https://www.cowley.edu/admissions/international.html
Arizona State University: https://admission.asu.edu/international/undergrad/english-proficiency
Park University: https://www.park.edu/admissions/international-student-admissions/undergraduate-admission-requirements-outside-u-s/
University of Alabama: https://admissions.ua.edu/international/english-language-proficiency/
Texas Tech University: https://www.depts.ttu.edu/admissions/international/admission/englishproof.php
Duolingo English Test: https://englishtest.duolingo.com/




