Quando uma família brasileira começa a olhar faculdade nos Estados Unidos, a primeira pergunta é sempre a mesma: tem bolsa esportiva? E a primeira coisa que ela aprende é que existe um nível inteiro do esporte universitário americano onde a resposta é não.
É a Divisão 3. E foi exatamente pra lá que eu fui em agosto.
Peguei a estrada até Baltimore, entrei na Notre Dame of Maryland University e passei a manhã com o Henry DeTitta, que treina vôlei lá desde 2007. Não é a Notre Dame do futebol americano que você vê na TV. É uma faculdade pequena, fundada em 1873, que foi a primeira faculdade católica feminina de quatro anos dos Estados Unidos, abriu para homens em 2023 e agora está montando o time masculino de vôlei.
Fui com uma pergunta na cabeça: se não tem bolsa esportiva, como é que um brasileiro pagaria por isso?
Primeiro, o que é “divisão”
As faculdades americanas se organizam em níveis para competir entre iguais. A associação que manda na maior parte delas é a NCAA, e ela divide os times em Divisão 1, 2 e 3. Pense no vestibular do esporte: o nível define contra quem você joga, quantas vagas existem e, principalmente, que tipo de dinheiro a faculdade pode oferecer.
Divisão 1 e 2 dão bolsa esportiva. Divisão 3 não dá. Nenhuma. Essa parte é verdade e não tem letra miúda.
O que quase ninguém explica é a outra metade da frase.
De onde vem o dinheiro, então
Nas palavras do Henry: “na Divisão 3 a gente ainda dá muito dinheiro em bolsa, só que é tudo acadêmico e por necessidade. Não é dinheiro de esporte.”
Na prática são dois cofres diferentes. Um olha as notas da sua filha. O outro olha a situação financeira da família. Nenhum dos dois olha o saque dela.
E aqui vem a parte que muda tudo para brasileiro, e que eu quero deixar escrita com todas as letras: a ajuda federal e estadual americana não vale para estudante internacional. A própria página de admissão internacional da faculdade diz isso. O que sobra para a sua filha é o dinheiro da própria universidade, e ele é limitado.
O Henry inclusive cita isso na conversa: muita gente de fora acha que não consegue dinheiro nenhum por causa dos programas federais. A conclusão certa não é “não tem nada”. É “tem, mas é outro dinheiro, e ele depende do boletim dela”.
O número que a gente viu
Preço de tabela da faculdade em 2026-27: mensalidade, taxas, moradia e alimentação somam algo perto de US$ 62,6 mil por ano. A US$ 5,10, isso é em torno de R$ 319 mil por ano. É o número que assusta e faz a família fechar a aba.
O pacote que vimos na admissão, para aluno internacional, ficou em torno de US$ 23 mil por ano. Desses, cerca de US$ 8 mil são moradia e alimentação, e uns US$ 15 mil são a escola em si.
Em reais, na cotação de hoje: cerca de R$ 117 mil no ano, algo como R$ 9,8 mil por mês. Continua sendo muito dinheiro. Mas é um terço da tabela, e é um número que dá para discutir em casa, o que R$ 319 mil não é.
Duas ressalvas honestas, porque esse número não é uma promessa:
É um exemplo, não uma tabela. Cada pacote depende de notas e da situação da família. O Henry contou que já viu atleta chegar perto de pagar nada, e a diferença costuma ser o boletim.
Mesmo com o desconto, você precisa comprovar o dinheiro. Para emitir o documento do visto, a faculdade pede uma carta do banco mostrando que a família tem como bancar o custo. O desconto reduz o valor, não elimina a comprovação.
O que você ganha de volta: o tempo dela
Essa foi a parte que mais me pegou, porque eu vivi o contrário.
Na Divisão 1, onde eu joguei, o esporte é o emprego. Você encaixa o estudo nas brechas que o treino deixa. Tem treino de força, tem sessão de vídeo, tem quadra, tudo separado, tudo obrigatório.
Na Divisão 3 da Notre Dame são duas horas por dia, e tudo cabe dentro dessas duas horas. Força, vídeo e quadra. O resto do dia é dela. Quem quiser puxar ferro além disso puxa no horário que quiser, e se tiver prova na semana, estuda.
Se a sua filha quer um curso pesado, enfermagem, engenharia, alguma coisa que exige laboratório e horas de estudo, essa conta fecha de um jeito que na Divisão 1 quase nunca fecha.
Estrangeiro joga lá?
Joga. O time já teve atletas do Canadá, do Peru e de Porto Rico, e tinha uma peruana na pré-temporada no dia em que eu estive lá. Nas palavras dele: é absolutamente possível, com um obstáculo ou outro a mais no caminho.
E tem uma janela aberta agora, que eu não esperava encontrar: o time masculino está no ano um. Eles começaram a recrutar em maio, fecharam com nove atletas e a primeira temporada começa em janeiro de 2027. Nas palavras do Henry, todo mundo que chega tem a mesma chance de jogar desde o primeiro dia, porque não tem veterano na frente de ninguém.
Time novo precisa preencher elenco inteiro de uma vez, não substituir uma peça. É a diferença entre entrar numa fila e entrar numa sala vazia.
O que fazer com essa informação
Se a Divisão 3 entrou na conversa lá em casa, são três perguntas para fazer a qualquer faculdade, e elas valem para qualquer nível:
Quanto sobra depois da bolsa acadêmica, para aluno internacional? Peça o número final, não o desconto.
Que nota abre qual faixa de bolsa? É o que transforma o boletim dela em dinheiro.
Quem vai ser o apoio dela por perto? Na Notre Dame, o time coloca quem chega de longe para dividir quarto com alguém da região. Vale perguntar o que cada programa faz.
Divisão 3 não é plano B. É outro acordo: o esporte para de pagar a conta e passa a ser a parte boa do dia.
Abraço, Rodrigo




