Existe um plano que parece muito sensato, e muita família monta ele assim:
“Ela foca no vôlei agora. No último ano do ensino médio, a gente coloca ela num intensivo e ela faz a prova.”
Faz sentido. A prova parece a linha de chegada, então o esforço vai todo pra perto dela.
O problema é que a prova não ensina nada. Ela só mede o que já estava lá. E mede de um jeito específico, que também precisa ser aprendido.
Eu sei disso por experiência própria. E não foi uma experiência bonita.
Eu não passei na primeira vez
Pra entrar na faculdade nos Estados Unidos, eu fiz duas provas: o TOEFL, que é a prova de inglês, e o SAT, que é a prova de admissão.
Não passei em nenhuma das duas na primeira vez.
Na segunda, eu passei. E o que mudou nesse meio tempo não foi, principalmente, o meu inglês. Foi que eu já conhecia a prova. Eu tinha entendido como ela funcionava e tinha feito simulado atrás de simulado.
A prova mede inglês. Mas a nota depende de conhecer a prova.
A fluência de verdade veio depois, quando eu já estava lá, vivendo a língua todo dia. É por isso que eu separo as duas coisas, e te peço pra separar também:
O inglês leva anos e se constrói com hábito.
A prova leva meses e se constrói com treino específico.
Quem junta as duas no último ano tenta fazer o trabalho de anos em poucos meses. Dá pra fazer. Eu fiz correndo. Mas quanto mais cedo começa, mais leve fica.
A escada
Cada ano tem um trabalho só. Não é pra fazer tudo ao mesmo tempo. É pra saber qual é o trabalho deste ano.
9º ano: o hábito
O trabalho desse ano é inglês todo dia, não um dia por semana.
Uma boa ferramenta pra começar é o Duolingo, um app gratuito e muito bem pensado. Eu uso com a minha filha, que está aprendendo português. Ele não resolve tudo, mas resolve a parte mais difícil do começo, que é abrir o app amanhã de novo.
Somar a isso duas coisas que custam zero:
Música em inglês, com a letra na tela.
O mesmo filme várias vezes, com legenda.
Foi assim que eu aprendi boa parte do meu inglês. A música que eu ouvia o tempo todo era “More Than Words”, do Extreme. O filme era Wall Street: Poder e Cobiça, aquele de 1987, com o Charlie Sheen. Eu pausava em cada palavra que não entendia...
Travou numa palavra? Pausa, anota, procura.
E se der pra começar antes do 9º ano, melhor ainda.
Um parêntese: o que eu aprendi em casa
Eu tentava falar português com os meus filhos “em alguns momentos”.
Não funcionou.
Há duas semanas eu passei a falar só português com eles. No começo foi difícil até pra mim, que sou carioca. Agora está ficando fácil, e eles estão entendendo.
Não mudou a inteligência de ninguém. Mudou a frequência.
Todo dia funciona. De vez em quando, não.
1º ano: a estrutura e a voz
O trabalho desse ano é entender como a língua funciona.
Um curso básico, presencial ou online, e repetir o básico quantas vezes der. Parece pouco ambicioso. Não é. Foi assim que eu aprendi: repetição até a estrutura ficar natural, até a frase sair sem montar peça por peça na cabeça.
O app continua, agora como apoio.
E é o ano de começar a produzir, não só entender:
1 minuto gravado por semana, em inglês. O tema pode ser sempre o mesmo: “como foi meu último jogo”. Ela já sabe o assunto, então sobra cabeça pra língua. E daqui a um ano, ela tem 50 gravações pra ouvir e perceber o quanto andou.
Digitar no computador. Parece detalhe, e não é: a prova tem partes escritas com tempo. Quem só escreve no celular, com corretor, perde minutos que fazem falta.
2º ano: conhecer a prova
O trabalho desse ano é saber o número real.
A prova que muitas faculdades americanas aceitam é o Duolingo English Test. Aqui mora a confusão mais comum que eu vejo:
O Duolingo English Test é da mesma empresa do app, mas é outra coisa.
É uma prova paga.
É feita em casa, no computador, com fiscal acompanhando pela câmera.
O resultado sai em 2 dias.
Os dias de app não viram nota. Uma ofensiva de 500 dias é um ótimo hábito e vale zero ponto na prova.
O site oficial tem um simulado gratuito, rápido. É por ele que começa. Ele devolve uma estimativa, e essa estimativa é o ponto de partida do plano do ano seguinte.
Com esse número na mão, dá pra fazer a pergunta que importa: quanto falta pra nota que as faculdades que interessam a ela pedem?
E aqui vale um aviso: não existe “a nota” dos EUA. Cada faculdade pede a sua. Tem faculdade de dois anos que não pede prova nenhuma (e isso não quer dizer que ela não vai ser testada na chegada), e tem universidade pedindo 110 no Duolingo. Eu escrevi um artigo inteiro só sobre isso, escola por escola: Quanto de inglês sua filha precisa pra jogar vôlei nos EUA.
Um detalhe que pega muita família desprevenida: o TOEFL mudou de escala. Desde 21 de janeiro de 2026, a nota vai de 1 a 6. Muita lista que aparece no Google ainda mostra a escala antiga, de 0 a 120. Confira sempre a data da informação.
3º ano: certificar
O trabalho desse ano é a prova oficial.
A gente recomenda fazer entre 6 e 9 meses antes de terminar o ensino médio. Por dois motivos:
Dá tempo de refazer se a nota não vier. E pode não vir. Comigo não veio.
Não antes disso, porque a nota vale 2 anos. Feita cedo demais, ela vence antes da sua filha chegar lá.
Se ela chega no 3º ano com os outros degraus feitos, esse ano fica leve. Ela não precisa aprender inglês e aprender a prova ao mesmo tempo. Ela só faz a prova.
E se sua filha já fala inglês bem?
Escola bilíngue, intercâmbio, inglês forte desde cedo: vale olhar pro SAT.
O SAT é a prova que as faculdades americanas usam na admissão, com uma parte de matemática e uma de leitura e escrita em inglês. Em algumas faculdades, a parte de inglês do SAT substitui a prova de inglês. Dois exemplos que conferi nas páginas oficiais:
Texas Tech University aceita 500 ou mais em Reading and Writing no lugar da prova de inglês.
University of Alabama aceita 550 ou mais.
A vantagem é dupla: uma prova resolve duas portas. E uma nota boa no SAT pode pesar na admissão e na bolsa acadêmica, que é separada da bolsa esportiva.
Mas isso muda de faculdade pra faculdade. Confira na página de English proficiency de cada uma.
O que fazer esta semana
Uma coisa só, dependendo do degrau em que ela está:
9º ano ou antes: escolher o horário fixo do inglês de todo dia. Não a quantidade, o horário.
1º ano: gravar o primeiro minuto. “Como foi meu último jogo.” Sem editar.
2º ano: fazer o simulado gratuito do Duolingo English Test e anotar o número.
3º ano: marcar a data da prova oficial, deixando espaço pra uma segunda tentativa.
A pergunta certa
Quando uma família me pergunta sobre inglês, a pergunta quase sempre é “como está o inglês dela?”.
Não é essa.
É qual é o plano dela. Em que ano ela está, qual degrau falta, quando vai ser a prova.
A fluência termina de chegar lá, do mesmo jeito que terminou de chegar pra mim. A nota tem que chegar antes.
Ninguém fica fluente em um ano. Mas todo mundo começa em algum ano.
O inglês é um pedaço do caminho. Os outros são o calendário do recrutamento, a elegibilidade, o vídeo, a primeira conversa com um técnico, e eles precisam acontecer na mesma ordem que essa escada.
Rodrigo
Fontes
Duolingo English Test: prova online, resultado em 2 dias. englishtest.duolingo.com
Validade de 2 anos do resultado do Duolingo English Test. Central de ajuda do DET
Simulado gratuito do Duolingo English Test. englishtest.duolingo.com/practice
Nova escala do TOEFL iBT (1 a 6) para provas a partir de 21 de janeiro de 2026. ETS
Texas Tech University: SAT Reading and Writing 500 como comprovação de inglês. Texas Tech Admissions
University of Alabama: SAT Reading and Writing 550 como comprovação de inglês. UA Admissions


